O poder ilegível precisa de uma superfície
O casaco que ganha sempre Cosida no forro de um casaco de trabalho azul, vendido por 252 dólares, há uma mensagem do CTO da Palantir, Shyam Sankar: pergunta-te constantemente se estás a ganhar. Se a resposta for sim, nada mais importa. O caos é tolerável; a dor é tolerável.
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O casaco que ganha sempre
Cosida no forro de um casaco de trabalho azul, vendido por 252 dólares, há uma mensagem do CTO da Palantir, Shyam Sankar: pergunta-te constantemente se estás a ganhar. Se a resposta for sim, nada mais importa. O caos é tolerável; a dor é tolerável. A única coisa que importa é ganhar. Não está numa parede de escritório nem num memorando interno. Está encostada às costas de quem o veste — invisível para o mundo, permanente para o portador. É difícil imaginar uma síntese mais precisa do que ali se está realmente a vender.
Saahil Desai, jornalista da The Atlantic, comprou um destes casacos no minuto em que as pré-encomendas abriram. Duzentas unidades, esgotadas em horas. O dele chegou numa caixa rotulada SOFT WEAR COLLECTION, com um cartão que certificava tratar-se do exemplar número 191, um autocolante a proclamar SOFTWARE DOMINATION, um postal a exortar CHEW THE GLASS e um cabide de cedro gravado com o logótipo da empresa. No eBay, relata Desai, os casacos já circulam a 600 dólares.
Convém situar quem vende. A Palantir — o nome vem de Tolkien — constrói ferramentas de inteligência artificial para uso militar e sistemas de localização de migrantes para o ICE. Vale perto de 300 mil milhões de dólares. O seu CEO, Alex Karp, declarou que o objectivo da empresa é «tornar a América mais letal». E é esta empresa que agora quer vestir-nos: o azul do casaco, garantiu à The Atlantic o responsável pela loja, foi escolhido pessoalmente pelo CEO. Chama-se, oficialmente, «Karp blue».
A tentação é rir. Muitos riram — houve quem classificasse o casaco como o pior lançamento de vestuário do ano, e a «Approval Matrix» da New York colocou-o na vizinhança das bactérias necrosantes. Mas o riso é uma forma de não ver. O casaco não é um acidente de marketing. É um mecanismo. E o mecanismo merece ser desmontado.
A Palantir tem um problema singular: ninguém consegue ver o que faz. O seu trabalho é tão sensível e tão opaco que, nota Desai, nem os próprios funcionários o sabem sempre descrever. O software da empresa é incompreensível, intangível, para muitos francamente distópico. Ora, o poder ilegível tem um custo reputacional: aquilo que não se consegue ver preenche-se com o pior que se consegue imaginar.
O merchandising resolve isto com uma economia notável. Um casaco é legível. Tem textura, peso, botões — no caso, espirais de preto e azul que um conhecido de Desai elogiou numa cooperativa alimentar de Brooklyn, sem saber o que dizer quando soube quem o fizera. Um casaco bem feito, em algodão americano, transmite algo que nenhum comunicado transmite: cuidado, artesanato, escala humana. O responsável pela loja da Palantir, Eliano Younes, disse-o à The Atlantic com aparente sinceridade: «Sinto que estou a gerir um pequeno negócio de família.» Duas pessoas, numa empresa de 300 mil milhões, a coser um rosto humano num corpo que ninguém consegue mapear.
É por isso que a experiência de Desai é tão reveladora. Durante um mês, usou o casaco em todo o lado — no metro, num bar com espectáculo de drag, em Woodstock entre estúdios de yoga. Um pai franziu-lhe o sobrolho na rua; um jovem de fio de ouro gritou-lhe, em Lower Manhattan, «isso é o chore coat da Palantir!». Mas na esmagadora maioria dos encontros, as pessoas viram apenas um casaco azul e elogiaram a cor. A infâmia online, descobriu Desai, quase não penetra no mundo físico. O que penetra é o objecto — e o objecto é irrepreensível. Um especialista em menswear que o examinou achou o corte «um pouco estranho», mas a construção sólida e o tecido «um azul mesmo bonito».
A arquitectura sem derrota
O segundo mecanismo é mais frio. A fórmula é conhecida: produzir pouco, anunciar com antecedência, esgotar depressa. A escassez artificial está em todo o lado — das chávenas de Natal da Starbucks, que geraram brigas entre adultos, às camisolas do Mundial lançadas por Zohran Mamdani, com filas à uma da manhã. Mas a Palantir acrescentou-lhe uma camada que a maioria das marcas não tem: a controvérsia como combustível gratuito.
Younes admitiu-o à The Atlantic quase por inteiro. Os casacos foram um sucesso não apenas porque esgotaram, mas pelo «chatter»: os fãs compram e partilham; os críticos criticam e amplificam; «isso cria uma espécie de reacção viral». Repare-se na geometria. Se o casaco agrada, a Palantir humaniza-se e ganha. Se o casaco irrita, a Palantir ocupa a conversa e ganha também. É uma aposta em que ambos os lados da moeda pagam ao mesmo jogador. A mensagem do forro, afinal, não era decorativa: pergunta-te constantemente se estás a ganhar. O casaco foi desenhado para que a resposta fosse sempre sim.
Não é caso isolado, e a tendência é ela própria um sinal. A Anduril colaborou numa consola de videojogos feita com o metal dos seus drones de ataque. A Nvidia contratou um director de «gear and merchandise» com salário na ordem dos 200 mil dólares e lançou uma camisola de malha com o avatar de Jensen Huang. Em Tóquio, pessoas esperaram duas horas na fila por um chapéu da Palantir que vem acompanhado de um póster com a análise da composição corporal de Karp: 58 anos, 77,2 quilos, 8% de massa gorda. Younes escreveu no X que a Palantir é «A marca de lifestyle» — chamou-lhe isso, conta Desai, pelo menos catorze vezes. Quando as empresas mais opacas do mundo decidem tornar-se marcas de estilo de vida, a pergunta certa não é se o merchandising é ridículo. É porque é que o poder sentiu necessidade de ser desejado.
Resta a ironia final, que Desai não deixou escapar. O chore coat nasceu em França, no século XIX, como uniforme de operários; do seu azul célebre vem a própria expressão «colarinho azul». Cento e cinquenta anos depois, o mesmo corte, o mesmo azul, é vendido em edição limitada por uma empresa que automatiza a guerra — e usado por um jornalista sentado à secretária, a escrever num portátil. O vestuário do trabalho manual tornou-se relíquia coleccionável de quem já não trabalha com as mãos, emitida por quem constrói as máquinas que dispensam ambos.
Aí está o que o casaco realmente carrega, para lá dos três bolsos que levam um livro cada um. Não aquece: traduz. Converte um poder que ninguém consegue ler num objecto que qualquer pessoa consegue elogiar. E fá-lo tão bem que um homem pode atravessar Brooklyn embrulhado numa das empresas mais polarizadoras da América e receber, quase sempre, o mesmo comentário: bonita cor.
O produto nunca foi o casaco. Foi a distância entre o que a Palantir faz e o que a Palantir parece — e o preço, 252 dólares, é o que custa encurtá-la.
Fontes e Referências
- Artigo original: «My New Life With the Palantir Chore Coat» — The Atlantic
- Autor: Saahil Desai
- Publicação original: 25 de Junho de 2026
- https://www.theatlantic.com/technology/2026/06/palantir-chore-coat/687686/
- Edição: Golden Blue Notes, a partir do artigo original · Agosto 2026