Estratégia é sobre escolhas

Estratégia não é planeamento nem ambição: é a disciplina de escolher, excluir e sustentar trade-offs com coerência.

A maioria das organizações não falha por falta de ideias. Falha por incapacidade de escolher.

Ao longo dos anos, o conceito de estratégia foi sendo progressivamente diluído. Passou a ser usado como sinónimo de planeamento, ambição ou intenção. Mas, na sua formulação mais rigorosa, estratégia não é nenhuma dessas coisas. Estratégia é escolha.

Michael Porter define estratégia como a criação de uma posição única e valiosa através de um conjunto distinto de actividades. Esta definição contém uma implicação fundamental: escolher implica excluir. Não existe estratégia sem trade-offs.

O verdadeiro teste de uma estratégia não está nas decisões que uma organização toma, mas nas decisões que recusa tomar.

Os clientes que decide não servir.
Os mercados onde escolhe não competir.
As propostas de valor que deliberadamente evita, mesmo quando parecem atractivas no curto prazo.

É nestas exclusões que a estratégia ganha forma.

Sem essa disciplina, o que existe não é estratégia, mas acumulação. E acumulação tende a destruir diferenciação.

O exemplo clássico é o da IKEA.

A IKEA não compete com base em personalização, materiais premium ou serviço intensivo. Pelo contrário, construiu a sua posição estratégica através de escolhas claras e coerentes: mobiliário funcional, design simples, produção em escala, auto-serviço, montagem pelo cliente e optimização logística. Cada uma destas decisões reforça as restantes.

Mas o ponto essencial não está no que a IKEA faz. Está no que decide não fazer.

Não oferece montagem incluída como padrão.
Não trabalha com materiais de luxo.
Não compete no segmento tradicional de mobiliário personalizado.

Essas exclusões não são limitações. São o próprio núcleo da sua vantagem competitiva.

A mesma lógica é desenvolvida em Playing to Win: How Strategy Really Works, de A.G. Lafley e Roger Martin. Os autores propõem que estratégia é um conjunto integrado de escolhas: qual a aspiração, onde jogar, como vencer, que capacidades construir e que sistemas de gestão suportar. Mas este sistema só funciona se existir coerência. E coerência exige disciplina na escolha – e, sobretudo, na exclusão.

Não se pode ser tudo para todos.
E tentar sê-lo é, frequentemente, a forma mais rápida de deixar de ser relevante para alguém.

Esta lógica torna-se ainda mais evidente quando aplicada fora do contexto empresarial tradicional. Em qualquer sistema que dependa de posicionamento – seja uma organização, uma comunidade ou um projecto – a diferenciação emerge menos daquilo que se inclui e mais daquilo que se recusa incluir.

Estratégia não é expansão contínua.
É definição.

Num ambiente onde tudo parece possível, a vantagem não está em fazer mais, mas em fazer menos – com intenção.

A maioria das organizações continua a perguntar: “o que devemos fazer a seguir?”

Mas a pergunta estratégica mais exigente é outra:

O que estamos dispostos a não fazer – de forma consistente – para sermos quem dizemos ser?

Nota editorial

Este artigo foi originalmente publicado por Rui Silva na MIT Technology Review Portugal e foi adaptado ao estilo editorial do Golden Blue Notes, preservando integralmente a lógica, os exemplos e o conteúdo original. [1][2][3]

Referências

[1] Porter, Michael E. — What Is Strategy?, Harvard Business Review, 1996

[2] Lafley, A.G.; Martin, Roger — Playing to Win: How Strategy Really Works, Harvard Business Review Press, 2013

[3] IKEA — modelo de negócio e posicionamento estratégico (caso amplamente estudado em estratégia empresarial)

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